Transmissão assume papel central na transição energética brasileira e mobiliza R$ 79,1 bilhões em novas expansões

Transmissão assume papel central na transição energética brasileira e mobiliza R$ 79,1 bilhões em novas expansões

Novo PET/PELP da EPE prevê cerca de 20,5 mil quilômetros de linhas e 81,9 mil MVA em subestações, com projetos destinados ao escoamento da geração renovável e ao atendimento dos mercados regionais

O novo Programa de Expansão da Transmissão e Plano de Expansão de Longo Prazo, PET/PELP, do primeiro semestre de 2026 reúne R$ 79,1 bilhões em obras do Sistema Interligado Nacional que já foram recomendadas pelos estudos de planejamento, mas ainda não receberam autorização ou não foram licitadas. O conjunto prevê aproximadamente 20,5 mil quilômetros de novas linhas e 81,9 mil MVA de capacidade em subestações. Mais do que uma carteira de projetos, o documento mostra que a transmissão passou a ocupar posição estratégica na expansão do setor elétrico: sem rede suficiente, a geração renovável não consegue ser plenamente integrada, novos centros de consumo enfrentam limitações e a segurança operacional do sistema se torna mais complexa.

Da geração à infraestrutura: a nova fronteira da transição energética

Durante anos, a expansão do setor elétrico brasileiro foi apresentada principalmente por meio da capacidade adicionada pelas fontes solar e eólica. Esse crescimento permanece fundamental, mas os números divulgados pela Empresa de Pesquisa Energética indicam que o próximo ciclo de investimentos dependerá, cada vez mais, da infraestrutura responsável por transportar e distribuir essa eletricidade.

Publicado em 9 de julho de 2026, o novo PET/PELP do primeiro semestre consolida as obras recomendadas em estudos concluídos até maio deste ano e ainda não contempladas por processos de autorização ou licitação. O relatório já considera os resultados da primeira etapa do Leilão de Transmissão nº 1/2026, realizada em março.

O investimento estimado para as expansões alcança R$ 79,1 bilhões. Desse total, R$ 49 bilhões, equivalentes a 62%, estão associados às linhas de transmissão. Outros R$ 30,1 bilhões, ou 38%, correspondem às subestações e aos equipamentos necessários para transformar, controlar e direcionar os fluxos de eletricidade.

O volume representa uma mudança relevante em relação ao ciclo anterior. Na edição do primeiro semestre de 2025, a carteira reunia R$ 39,1 bilhões. Na comparação nominal entre os dois documentos, o valor aumentou aproximadamente 102%, passando a pouco mais do dobro em um ano. A comparação, contudo, não deve ser interpretada como crescimento anual dos investimentos efetivamente executados. Cada edição incorpora novos estudos e retira projetos que já tenham avançado para autorização ou licitação, alterando a composição da carteira.

Essa diferença metodológica é importante. O PET/PELP não é um orçamento de desembolso imediato nem uma relação de empreendimentos já contratados. Ele funciona como uma fotografia atualizada das obras estudadas e recomendadas, oferecendo ao governo, aos agentes e aos investidores uma visão das necessidades futuras da rede.

Mais da metade dos recursos está ligada ao escoamento da geração

Um dos dados mais reveladores do relatório está na finalidade dos projetos. Cerca de R$ 42,9 bilhões, correspondentes a 54% do total, estão relacionados a obras planejadas originalmente para o escoamento da geração e para a ampliação das interligações entre regiões. Os demais R$ 36,2 bilhões, ou 46%, destinam-se prioritariamente ao atendimento dos mercados regionais.

A distribuição mostra que a transmissão deixou de ser uma infraestrutura que apenas acompanha o crescimento da geração. Ela se tornou uma condição para que novos projetos possam operar de maneira eficiente.

A expansão das fontes renováveis ocorre, em muitos casos, distante dos maiores centros consumidores. O Nordeste concentra recursos solares e eólicos de elevada qualidade, enquanto grande parte da carga permanece nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. Essa separação geográfica exige corredores de transmissão capazes de transportar grandes blocos de energia, administrar fluxos entre submercados e preservar a estabilidade do Sistema Interligado Nacional.

Quando a rede não acompanha o ritmo da geração, aumentam os riscos de restrições operacionais, postergação de conexões e limitação temporária da produção de determinadas usinas. O problema deixa de ser apenas construir capacidade renovável e passa a incluir a capacidade real de integrar essa energia ao sistema.

Sudeste e Centro-Oeste concentram quase metade da carteira

A maior parcela dos investimentos está no submercado Sudeste/Centro-Oeste, que reúne R$ 38,7 bilhões, equivalentes a 49% do total. O Nordeste aparece na sequência, com R$ 19,7 bilhões, ou 25%. A região Sul concentra R$ 15,6 bilhões, correspondentes a 20%, enquanto o Norte responde por R$ 5,1 bilhões, ou 6%.

A concentração no Sudeste/Centro-Oeste não significa que os recursos estejam voltados apenas à geração localizada nessas regiões. Linhas de interligação produzem benefícios para diferentes áreas do país, permitindo o intercâmbio de eletricidade e aumentando a capacidade do sistema de responder a variações regionais de geração e consumo.

O próprio relatório ressalta que novos estudos estruturantes previstos para a região Norte deverão ser incorporados às próximas edições. Como consequência, a participação do submercado nos investimentos projetados pode aumentar conforme os estudos sejam concluídos.

Rede deverá ganhar 20,5 mil quilômetros de linhas

No horizonte analisado pela EPE, a expansão física projetada chega a aproximadamente 20,5 mil quilômetros de novas linhas de transmissão. Do investimento de R$ 49 bilhões destinado a essas instalações, R$ 46,5 bilhões, ou 95%, possuem caráter licitatório. Apenas 5% correspondem a obras que deverão seguir pelo regime de autorização.

No caso das subestações, o planejamento aponta a incorporação de cerca de 81,9 mil MVA de capacidade. Dos R$ 30,1 bilhões previstos para essas instalações, R$ 20,7 bilhões, equivalentes a 69%, estão vinculados a projetos licitáveis. Outros R$ 9,4 bilhões, ou 31%, deverão ser conduzidos por meio de autorizações.

As linhas representam a dimensão mais visível da transmissão, mas as subestações desempenham função igualmente decisiva. São elas que adequam níveis de tensão, organizam os fluxos de potência, conectam diferentes instalações e ampliam a capacidade de atendimento às cargas. Uma rede mais extensa, sem subestações adequadas e equipamentos de controle, não assegura por si só maior confiabilidade.

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PET e PELP organizam diferentes horizontes de decisão

Embora apareçam reunidos no mesmo documento, o Programa de Expansão da Transmissão e o Plano de Expansão de Longo Prazo cumprem funções distintas.

No ciclo de 2026, o PET possui caráter determinativo e abrange as obras cuja necessidade está identificada para os seis anos seguintes, até 2032. O PELP reúne instalações com necessidade sistêmica a partir de 2033. Essas obras possuem caráter indicativo e podem ser reavaliadas nos ciclos posteriores, conforme a evolução da carga, da geração, das tecnologias e das condições de operação do sistema.

Essa atualização periódica reduz o risco de tratar projeções de longo prazo como decisões imutáveis. O planejamento precisa responder à entrada de novas cargas industriais, à eletrificação de atividades econômicas, à geração distribuída, aos projetos de hidrogênio de baixo carbono e ao avanço de tecnologias como armazenamento e compensação de potência.

Os valores do relatório foram estimados com base no Banco de Preços de Referência da Agência Nacional de Energia Elétrica, atualizados para janeiro de 2026. Para instalações especiais não contempladas nessa base, a EPE utilizou os custos indicados nos estudos de origem, também atualizados monetariamente.

Maior parte das licitações ficará para 2027 em diante

Do conjunto de instalações classificadas como licitáveis, o PET/PELP estima que aproximadamente R$ 11 bilhões estejam associados à segunda parte do Leilão de Transmissão nº 1/2026 e ao Leilão nº 2/2026. Outros R$ 56,2 bilhões, equivalentes a 84% da carteira licitável, devem ser direcionados aos leilões de 2027 em diante.

O primeiro Leilão de Transmissão de 2026 foi dividido em duas sessões. A primeira, realizada em março, reuniu cinco lotes e investimentos estimados em R$ 3,3 bilhões. A segunda, concluída em 3 de julho, contou com quatro lotes e R$ 1,8 bilhão em investimentos. Ao todo, o certame contratou nove lotes, abrangendo 859 quilômetros de linhas e 4.350 MVA de capacidade de transformação.

O avanço entre o estudo técnico e a execução física, entretanto, depende de uma cadeia extensa de decisões. Depois das recomendações elaboradas pela EPE, as obras são consolidadas pelo Ministério de Minas e Energia nos planos de outorga e seguem para processos de autorização ou para os leilões organizados pela ANEEL.

Em julho, o MME também colocou em consulta pública o Plano de Outorgas de Transmissão de Energia Elétrica de 2026. O POTEE reúne recomendações técnicas produzidas a partir de estudos da EPE e do Operador Nacional do Sistema Elétrico e servirá de base, após sua consolidação, para os processos conduzidos pela agência reguladora.

Entre os projetos incluídos está o Bipolo Nordeste 2, uma nova interligação em corrente contínua entre Nordeste e Sudeste, com tecnologia HVDC-VSC. Segundo o MME, a solução deverá aumentar o controle dos fluxos, reforçar a estabilidade do sistema e favorecer a integração das fontes solar e eólica, além de preparar a rede para novas cargas eletrointensivas, como data centers e projetos de hidrogênio de baixo carbono.

A transmissão como ativo estratégico

O principal recado do PET/PELP não está apenas no montante de R$ 79,1 bilhões. Está na mudança de escala e de função atribuída à rede elétrica.

A transmissão passa a responder simultaneamente por três desafios: permitir o escoamento da geração renovável, sustentar o crescimento dos mercados regionais e aumentar a capacidade de intercâmbio entre diferentes áreas do país. Trata-se de uma infraestrutura com impacto direto sobre segurança energética, competitividade industrial, localização de novos investimentos e aproveitamento dos recursos renováveis.

O Brasil construiu uma matriz elétrica marcada pela elevada participação de fontes renováveis. A próxima etapa dependerá de transformar essa vantagem de geração em disponibilidade efetiva de energia, nos locais e horários em que ela é necessária.

Nesse contexto, linhas e subestações deixam de ocupar os bastidores do setor. Tornam-se a estrutura que determinará quanto da expansão renovável poderá ser efetivamente aproveitada, com que nível de segurança e a qual custo para consumidores e atividades produtivas.

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