O Brasil que a AIE admira e os desafios que ele precisa superar

O Brasil que a AIE admira e os desafios que ele precisa superar

A Agência Internacional de Energia reconhece as conquistas do país em energias renováveis e quer o Brasil como membro pleno. Mas entre o elogio internacional e a realidade do sistema elétrico nacional existe uma distância que precisa ser percorrida com urgência.

Existe uma frase que os técnicos da Agência Internacional de Energia repetem quando falam do Brasil. Ela aparece em relatórios, em pronunciamentos e nas palavras do próprio diretor executivo Fatih Birol: o Brasil é, ao mesmo tempo, um grande produtor de petróleo e gás e um genuíno campeão da energia de baixo carbono. Essa combinação, rara no mundo, é o que coloca o país numa posição única nas discussões globais sobre o futuro da energia.

Em novembro de 2025, durante a COP30 em Belém, a AIE lançou o Brazil 2025, seu primeiro relatório de revisão aprofundada das políticas energéticas brasileiras. O documento foi lançado em Belém durante a conferência climática COP30 pelo secretário de Transição e Planejamento Energético do Brasil, Gustavo Cerqueira Ataíde, e pelo chefe da Divisão de Energia Renovável da AIE, Paolo Frankl, e marca a primeira revisão desse tipo que a AIE conduziu para o Brasil. O estudo foi preparado a pedido do próprio governo brasileiro, e esse detalhe importa: não foi a AIE que chegou ao Brasil com um questionário, foi o Brasil que convidou o olhar externo.

O resultado é um retrato ambivalente, tecnicamente rigoroso e diplomaticamente honesto. De um lado, elogios merecidos à estrutura energética que o país construiu ao longo de décadas. Do outro, 30 recomendações concretas para que o Brasil supere as contradições que ameaçam seu próprio protagonismo na transição energética global.

O que a AIE reconhece no Brasil

Para entender o peso do reconhecimento internacional, é preciso primeiro entender o que o Brasil realmente construiu em termos de matriz energética.

O relatório destaca que o Brasil se beneficia de um dos sistemas elétricos mais limpos do mundo, com cerca de 90% de sua geração elétrica em 2024 proveniente de fontes de baixas emissões, principalmente hidrelétricas, eólica, solar e bioenergia.

Isso não é uma meta para 2030, é a realidade de hoje. Em boa parte dos países do G20, onde o debate sobre descarbonização da matriz elétrica ainda é uma aspiração de longo prazo, o Brasil já vive o que outros planejam alcançar em décadas.

O Brasil representa quase 7% da produção de energia renovável do planeta, superando em muito sua participação de 3% na população global e 2% no PIB mundial. O país tem sido líder histórico em biocombustíveis e tecnologia hidroelétrica, e agora busca expandir sua inovação energética para novas áreas tecnológicas.

Essa presença renovável não foi construída por acaso nem por decreto. É resultado de décadas de políticas consistentes, de leilões de energia que atraíram investimentos, de programas como o Pró-Álcool que nasceu nos anos 1970 como resposta à crise do petróleo e sobreviveu a todos os governos desde então.

O Brasil é um pioneiro global na produção de biocombustíveis, combinando mandatos de mistura, incentivos financeiros e exigências de sustentabilidade para expandir o fornecimento de biocombustíveis de forma segura e acessível. Os veículos flex-fuel, que podem funcionar com gasolina ou etanol, foram desenvolvidos nos anos 1990 e agora compõem quase 85% da frota de veículos leves do Brasil.

Esse histórico de políticas energéticas que atravessam governos é raro no mundo em desenvolvimento. E é exatamente isso que a AIE reconhece quando fala em “visão estratégica de longo prazo” capaz de atrair investimentos.

O processo que oficializou a parceria

O Brasil não é membro pleno da AIE. Nunca foi. Desde 2017, o país integrava a agência como país associado, participando de reuniões e grupos de trabalho, mas sem direito pleno de voto nas decisões estratégicas.

Isso começou a mudar em setembro de 2025. O Brasil enviou uma carta à IEA formalizando o pedido para se tornar membro pleno da instituição. O documento é assinado pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, e pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.

A resposta veio em fevereiro de 2026, durante a Reunião Ministerial da AIE em Paris. Os ministros dos países membros da Agência Internacional de Energia confirmaram, por unanimidade, a decisão de iniciar o processo formal de adesão do Brasil à agência. A adesão plena é considerada estratégica para ampliar a influência do Brasil nas decisões globais sobre energia, além de alinhar o país às melhores práticas e compromissos da AIE em temas como descarbonização, segurança energética e desenvolvimento tecnológico.

A decisão unânime dos ministros de 54 países reunidos em Paris é, em si, um reconhecimento. No atual ambiente geopolítico global, onde o consenso é cada vez mais raro, aprovar a entrada de um novo país por unanimidade equivale a um diploma de confiança.

“A decisão dos ministros de iniciar o processo de adesão do Brasil é uma prova do aprofundamento da parceria entre o Brasil e a AIE”, disse o diretor executivo da AIE, Fatih Birol. A etapa representa uma mudança significativa no engajamento do Brasil com a governança energética global e um marco na relação da AIE com a América Latina e o Caribe, segundo comunicado da própria AIE.

Do lado brasileiro, o ministro Alexandre Silveira resumiu o momento: “Estamos prontos para contribuir com nossa experiência e, ao mesmo tempo, fortalecer ainda mais a política energética brasileira para garantir energia segura e acessível para nossa população. Estamos prontos para trabalhar lado a lado com a Agência na construção de sistemas energéticos mais seguros, resilientes e inclusivos.”

Para quem acompanha o setor energético brasileiro há mais de duas décadas, esse movimento tem um significado que ultrapassa o protocolo diplomático. O Brasil interrompeu tratativas de adesão à Agência Internacional de Energias Renováveis (Irena) durante o governo anterior.

O relatório Brazil 2025: o que a AIE recomenda

O elogio internacional não veio desacompanhado de cobranças. O relatório Brazil 2025 contém 30 recomendações concretas. O novo relatório delineia 30 recomendações direcionadas para apoiar o país no cumprimento de seus ambiciosos objetivos energéticos e climáticos, equilibrando crescimento econômico, inclusão social e segurança energética.

Entre os pontos que a AIE destaca positivamente está a liderança na produção de biocombustíveis, a robustez do sistema hidrelétrico e os leilões de transmissão que conectam regiões de alto potencial renovável ao restante do país. A instituição internacional citou os leilões de transmissão como uma estratégia-chave para conectar áreas de alto potencial de recursos renováveis com o restante do país.

A agência também aponta o potencial do Brasil para expandir a produção de hidrogênio de baixas emissões e biocombustíveis de nova geração. O relatório nota que o país está bem posicionado para escalar a produção de hidrogênio de baixas emissões e avançar no desenvolvimento de biocombustíveis de próxima geração.

Mas o documento também aponta os gargalos. A AIE é direta ao dizer que o crescimento das renováveis variáveis exige investimentos urgentes em flexibilidade do sistema. À medida que as energias renováveis variáveis se expandem rapidamente no Brasil, investir em flexibilidade do sistema, por meio de hidroelétricas, armazenamento, resposta da demanda e modernização da rede, será essencial para garantir confiabilidade, eficiência e resiliência.

Esse diagnóstico coincide exatamente com o que o setor elétrico brasileiro está vivendo na prática.

A crise que o elogio não apaga: o curtailment

Enquanto o Brasil colhe reconhecimento internacional pela sua matriz renovável, o sistema elétrico nacional enfrenta uma crise que é, paradoxalmente, consequência direta de seu próprio sucesso.

O curtailment, ou corte forçado de geração, é o fenômeno pelo qual o Operador Nacional do Sistema Elétrico ordena que usinas eólicas e solares reduzam ou interrompam sua geração porque a rede de transmissão não consegue escoar toda a energia produzida.

Em 2023, o curtailment nas usinas de geração eólica e solar no Brasil atingiu 20,6% da capacidade total integrada ao Sistema Interligado Nacional, mais que o dobro em relação aos 9,3% do ano anterior. 54% dos cortes foram motivados pela sobreoferta de energia.

O problema se aprofundou ao longo de 2025 e chegou a 2026 numa trajetória preocupante. As usinas eólicas e solares no Brasil já desperdiçaram 48,7 TWh de energia por causa do curtailment, volume que equivale a quase 8% de todo o consumo elétrico do país. Apenas em janeiro de 2026, os cortes somaram 2,86 TWh, alta de 45% em relação a dezembro de 2025.

Para ter perspectiva do que isso representa: o curtailment feito em 2025 seria suficiente para suprir a energia de toda a frota de carros elétricos do Brasil durante um ano. Os cortes também poderiam atender à demanda anual de 40 data centers de grande porte. Outra comparação perturbadora: os cortes de geração renovável em outubro de 2025 foram 74% maiores que a geração de Itaipu no mesmo período.

O prejuízo financeiro é expressivo e recorrente. Entre janeiro de 2024 e janeiro de 2025, as perdas financeiras associadas à energia renovável não despachada ultrapassaram R$ 2 bilhões.

A origem do problema é estrutural e bem diagnosticada. O problema tem origem no descompasso entre a velocidade de instalação de novos parques eólicos e solares e o ritmo de construção das linhas de transmissão. Desde o segundo semestre de 2023, o ONS tem ordenado reduções forçadas de geração, prática intensificada em 2025, gerando uma crise técnica e econômica que ameaça a previsibilidade dos investimentos.

Atrasos em obras estratégicas, como as linhas do Projeto Nordeste–Sudeste, têm contribuído diretamente para o aumento de restrições operativas. O armazenamento de energia elétrica é uma das ferramentas mais promissoras para mitigar os efeitos do curtailment em sistemas com alta penetração de fontes intermitentes, como a solar fotovoltaica e a eólica.

E o horizonte não é animador no curto prazo. O corte de geração solar centralizada no Brasil deve chegar a 23,5% na média anual em 2026. Para a fonte eólica, o nível de curtailment previsto fica em 10,5% em 2026. O próprio ONS recomendou que a expansão da geração solar centralizada e distribuída não continue avançando em ritmo superior ao crescimento da carga diurna no sistema.

Brasil como líder regional e global em renováveis

Apesar das turbulências internas, o posicionamento internacional do Brasil em energias renováveis segue robusto. As projeções da AIE para o país são consistentemente ambiciosas.

Segundo relatório da AIE, até 2026 a maioria da nova demanda de eletricidade no Brasil será atendida por energia eólica e solar fotovoltaica, e a geração combinada dessas fontes em 2026 será quase 50% maior que a de 2022.

O papel do Brasil na liderança regional é incontestável. As estimativas da AIE apontam um aumento de 165 gigawatts de geração renovável na América Latina entre 2023 e 2028, sendo que o Brasil deve representar mais de 65% desse total. A energia solar lidera a expansão, seguida pela energia eólica. O Brasil é responsável por quase 90% das adições de energia solar distribuída na região.

Na frente dos biocombustíveis, o reconhecimento é ainda mais consolidado. O Brasil, em conjunto com outras economias emergentes, lidera o crescimento de biocombustíveis, superando a média dos últimos cinco anos em 30%. O país, isoladamente, contribuirá com 40% da expansão global de biocombustíveis até 2028, respaldado por políticas robustas nesse setor.

Esse desempenho nos biocombustíveis ganhou reforço diplomático em outubro de 2025. Durante o Pré-COP30 em Brasília, o Brasil anunciou o Compromisso de Belém para Combustíveis Sustentáveis, a iniciativa “Belém 4x”, que busca apoio político de alto nível para a meta global de ao menos quadruplicar a produção e uso de combustíveis sustentáveis até 2035. Japão, Itália e Índia expressaram apoio à iniciativa brasileira.

O Brasil que a AIE admira e os desafios que ele precisa superar

O desafio da transmissão: o elo que falta

O nó do sistema elétrico brasileiro é conhecido e antigo, mas nunca foi tão urgente como agora. A transmissão é a artéria que permite que a energia gerada no Nordeste chegue ao Sudeste consumidor, que conecta parques solares do interior ao litoral, que viabiliza a exportação futura de energia verde.

A AIE identifica isso com precisão. O relatório aponta que o Brasil precisa de um aumento considerável de investimentos em projetos viáveis e infraestrutura que proporcionem a flexibilidade necessária para uma transição segura e sustentável. O crescimento acelerado das renováveis variáveis só será sustentável se for acompanhado de investimentos proporcionais na rede.

De 2026 a 2027, especialistas do setor avaliam que o curtailment ainda vai pressionar muito o sistema. Um alívio inicial, por questões estruturais, pode acontecer entre 2028 e 2029. Mas para resolver o problema de forma estrutural, a estimativa se estende por cerca de 10 anos.

Essa perspectiva de dez anos de curtailment crescente, mesmo com obras de transmissão em andamento, é o grande paradoxo do Brasil renovável. O país tem energia limpa de sobra. Ela está sendo gerada. Mas não chega onde precisa.

Os números de 2026 contam essa história com clareza. A energia solar fotovoltaica, apesar das restrições, iniciou 2026 liderando a expansão da matriz elétrica brasileira. Em janeiro, o Brasil incorporou 543 MW à matriz elétrica, sendo 509 MW provenientes de novas usinas solares, equivalente a mais de 93% da expansão registrada no período. O sistema continua crescendo, mas a infraestrutura que deveria absorver esse crescimento ainda caminha em outro ritmo.

O que o reconhecimento da AIE representa na prática

Há um valor concreto, além do simbólico, no reconhecimento da AIE e no processo de adesão em curso. Países membros plenos da agência têm acesso prioritário a análises técnicas, participam das decisões sobre padrões internacionais de energia, influenciam as projeções que orientam investidores globais e obtêm credibilidade regulatória que atrai capital externo.

Para o Brasil, que busca atrair investimentos para hidrogênio verde, biocombustíveis de aviação, armazenamento de energia e modernização da rede, o carimbo da AIE tem peso financeiro real. Investidores institucionais do mundo todo usam as análises da agência como referência. Uma revisão positiva do relatório Brazil 2025 é, na prática, um endosso técnico para os projetos brasileiros de transição energética.

O Brasil é visto pela AIE como um parceiro estratégico por sua matriz renovável e por seu potencial como exportador de biocombustíveis e hidrogênio verde.

O relatório Brazil 2025 está sendo integrado ao PLANTE, o Plano de Transição Energética do governo federal. O governo brasileiro está incorporando as recomendações do relatório como parte do trabalho em andamento em seu plano de transições energéticas. A AIE e o Ministério de Minas e Energia também estão preparando um Roteiro de Dados e Estatísticas que fornecerá elementos para o fortalecimento dos sistemas de dados energéticos do Brasil. IEA

Entre o diploma e a obra

Quem trabalha com energia sabe que reconhecimento internacional não resolve gargalo de transmissão. Elogio de Paris não constrói linha de alta tensão no Nordeste. O gap entre o que o Brasil é no papel e o que o Brasil consegue entregar na prática é exatamente o espaço onde as políticas precisam agir.

O país tem um sistema elétrico que é referência mundial. Tem biocombustíveis que são modelo global. Tem energia solar e eólica crescendo em ritmo recorde. E tem, ao mesmo tempo, a crise do curtailment que desperdiça quase 50 TWh de energia limpa por não conseguir escoá-la para onde ela é necessária.

O avanço do armazenamento por baterias é fundamental para reduzir a intermitência solar e eólica, diminuir o curtailment e oferecer serviços de flexibilidade ao sistema. O hidrogênio verde surge como nova fronteira para a descarbonização industrial e potencial agente de exportação. A expansão do mercado livre e dos PPAs tende a fortalecer a previsibilidade de receitas e atrair novos investimentos.

O Brasil de 2026 é um país que a AIE admira, que 54 países quiseram ter como membro por unanimidade, e que ao mesmo tempo ainda precisa resolver contradições fundamentais entre a velocidade de crescimento das renováveis e a infraestrutura que as suporta.

O certificado de liderança está emoldurado na parede. A obra de transmissão ainda está no papel de engenharia. E o relógio do curtailment não para.

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