É possível termos racionamento de energia em 2021

Crise hídrica: é possível termos racionamento de energia em 2021?
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No passado, o racionamento de energia causou insegurança no Brasil. Entenda o cenário atual da crise hídrica e veja as possibilidades de apagões em 2021!

Quais os impactos da crise hídrica no país? Com a diminuição das chuvas desde o ano passado, os órgãos responsáveis e especialistas do setor de energia já alertavam sobre uma possível crise e a possibilidade de racionamento de energia em 2021.

No início de junho de 2021, a Agência Nacional de Águas (ANA) declarou situação crítica de escassez hídrica em áreas de cinco estados: Minas Gerais, Paraná, Goiás, Mato Grosso do Sul e São Paulo. O período mais chuvoso do ano acabou em abril e foi o mais seco em 91 anos.

Com esse alerta de risco hídrico, medidas estão sendo tomadas para evitar o racionamento de energia até outubro, período de poucas chuvas e seca mais severa na região Sudeste e Centro-Oeste. Com o nível crítico nos reservatórios, as termoelétricas fósseis já foram ligadas, mas esse modelo é mais caro, além de ser poluente.

Como consequência, a partir de junho, a conta de luz vai aumentar, com custo de R$ 6,243 para cada 100 kWh consumidos, indo para a bandeira tarifária vermelha, patamar 2. Esse aumento impacta diretamente os setores de serviço e indústria. Somando o aumento já em vigor, segundo a estimativa da TR Soluções, a perspectiva é de que a tarifa de energia tenha aumento médio de 14,5% neste ano.

Com os aumentos recorrentes de energia nos últimos cinco anos, os usuários estão começando a refletir sobre as vantagens de investimento em fontes próprias de geração de energia para não ficarem tão dependentes das variações do mercado.

O passado da crise hídrica no Brasil

A possibilidade de um novo racionamento de energia ainda causa insegurança em milhares de pessoas no Brasil. Todo início de ano, a sociedade questiona os setores responsáveis sobre a possibilidade de isso acontecer novamente.

O medo atual vem do início dos anos 2000 quando o país viveu um forte racionamento de energia para evitar o apagão. Naquela época, 90% da produção de energia vinha de usinas hidrelétricas e o país passava por uma escassez de chuva, com os reservatórios com níveis baixíssimos. Aliado a isso, a falta de investimentos em infraestrutura e pouca diversificação da matriz energética levou o país a uma grande crise.

Atualmente, mais de 60% da energia produzida no Brasil vem de usinas hidrelétricas. Mesmo que nesses 20 anos investimentos tenham sido feitos em outras matrizes, em caso de aumento de consumo ou escassez de chuva, é possível que essa única matriz não consiga suprir a demanda do mercado.

Quais os motivos para um possível racionamento de energia?

Com um plano de vacinação contra a Covid-19 em curso, a tendência é de que o mercado volte a crescer e a economia se estabilize. Com isso, os setores produtivos voltarão a produzir e o consumo de energia também vai aumentar. Segundo especialistas, o setor pode crescer 5% até novembro de 2021, ocasionando picos de consumo.

Associado a isso está o fato de pouca ocorrência de chuvas nas áreas das usinas. Desde dezembro, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) registra baixa quantidade de água dos reservatórios. No Sul, Sudeste e Centro-Oeste os valores foram os piores da última década. A situação não é atípica, pois há vários anos a hidrologia do país tem sido ruim.

Segundo o ONS, o parque elétrico brasileiro tinha, em novembro de 2020, uma capacidade instalada de 165 mil megawatts. Em janeiro de 2021, a carga média de energia no SIN foi de 69 mil megawatts. Ou seja, número bem menor do que o limite da capacidade. Porém, nem toda a capacidade do parque elétrico fica disponível ao mesmo tempo. A falta de disponibilidade de energia — água, sol, vento, óleo combustível — ou paradas para manutenção e problemas técnicos impactam na quantidade disponível de energia.

A falta de chuvas periódicas faz com que um número maior de térmicas sejam ligadas para garantir o fornecimento. Consequentemente, as tarifas de luz aumentam, impactando toda a cadeia. Historicamente isso já ocorre desde 2013, quando as térmicas são utilizadas para suprir o déficit da produção das hidrelétricas. Embora seja um problema antigo, pouco se tem feito para quebrar essa dependência.

O que os especialistas dizem sobre a crise hídrica?

Entre os especialistas não há consenso sobre a situação. Para Ana Carla Petti, presidente da MegaWhat Consultoria, “o atendimento do consumo de energia elétrica é de atenção para o Sistema Interligado Nacional (SIN), mas não deve ser considerado alarmante”, explicou a especialista na apresentação de um webinar, no dia 2 de junho. Segundo ela, há possibilidade de atendimento de carga até dezembro, mesmo que com uma pequena margem.

A PSR Energy Consulting and Analytics classifica a situação para o suprimento energético preocupante, mas ainda não é alarmante. Em sua avaliação, o país possui alternativas para gerenciar a crise hídrica, como já fez no passado recente. A consultoria analisou o resultado das simulações em dois cenários — conservador e de estresse — e em nenhum deles foram registrados cortes de energia ou de potência em qualquer situação.

Contudo, em entrevista à CNN, o presidente do Instituto Acende Brasil, Cláudio Sales, disse que ”há risco de apagão em horário de pico no 2º semestre”. Cláudio reforça que não há iminência de desabastecimento por longos períodos, como ocorreu em 2001, mas sim apagões em horários de pico. Em 2001, o país não tinha energia suficiente para atender o consumo, mas de lá para cá houve investimentos em infraestrutura e, hoje, o Brasil é capaz de abastecer o nível médio de gigawatts exigidos.

Quais as soluções para impedir novos apagões?

Enquanto mais de 60 países implementam políticas públicas que promovem matrizes limpas e renováveis, o Brasil novamente aciona suas termelétricas para garantir o abastecimento. Desde o apagão de 2001, o governo criou planos e traçou metas para investimentos em vários setores, como expansão da energia eólica e solar, biogás e gás natural. Mas as ações já implementadas precisam avançar para que a atual configuração do setor elétrico mude e se diversifique.

A energia solar, por exemplo, vem se desenvolvendo rapidamente no Brasil. Para esse ano, a ABSOLAR calcula um crescimento de mais de 4,9 GW dessa fonte no país. Contudo, ainda faltam subsídios e legislação suficiente para promover investimentos para a área de renováveis no país. A possibilidade de taxação do sol, por exemplo, com a retirada de até 60% dos subsídios de quem produz a própria energia causa insegurança ao setor.

Outros pontos que precisam ser analisados são a nova lei do gás, a privatização da Eletrobrás e a modernização do setor. Mesmo que a capacidade instalada de geração tenha crescido, grande parte desse aumento vem de fontes renováveis. Ou seja, sua intermitência e sazonalidade reduzem a reserva girante do sistema, mantendo-o ainda na dependência de condições climáticas. Desse ponto de vista, ainda é preciso que outras fontes se desenvolvam para garantir a estabilidade na geração energética em todos os períodos do ano.

Portanto, é possível dizer que a crise hídrica não deve ocasionar um grande racionamento de energia em 2021, mas que haverá necessidade de uso consciente de energia. Vale ressaltar ainda que é importante que os setores responsáveis analisem o cenário atual para entender a importância da modernização do setor elétrico, diversificação das matrizes e se preparem para 2022 com antecedência, caso a seca se estenda por todo ano de 2021.

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