Relatório da Agência Internacional de Energia confirma a virada histórica do setor: renováveis superam o carvão, eletricidade cresce como nunca e desafios em segurança, investimentos e clima exigem novas respostas para o mundo pós-2025.
O ano de 2025 entra para a história como o divisor de águas da energia. De acordo com o World Energy Outlook 2025, a eletricidade cresce a taxas inéditas, motivada pela digitalização, eletrificação do transporte, aumento do uso industrial e expansão de data centers, inteligência artificial e climatização. No contexto global, a eletricidade já responde por 21% da energia final consumida e projeta saltar para entre 40% e 50% do volume total até 2035, dependendo do grau de adoção de veículos elétricos, redes inteligentes e qualidade das políticas públicas.
Renováveis superam o carvão e impulsionam crescimento
Pela primeira vez, a geração global de energia renovável (principalmente solar e eólica) superou a produção global a partir do carvão. Isso significa que fontes limpas são agora as maiores fornecedoras do crescimento mundial da demanda elétrica. Somente a solar fotovoltaica foi responsável por quase 80% do aumento de oferta elétrica em 2024-2025, conforme o relatório da BBC.
A IEA prevê que, até 2035, 80% do aumento líquido de consumo seja suprido por renováveis, com destaque absoluto para Brasil, Índia, Sudeste Asiático, China e partes da África regiões abençoadas por potencial solar e recursos naturais abundantes.
O novo mapa da eletricidade — e o papel do Brasil
A geografia do setor energético mudou: se antes a China respondia sozinha por mais de 60% do crescimento, agora Índia, Sudeste Asiático, América Latina e alguns países africanos despontam como motores da expansão.
O Brasil, por exemplo, atingiu 88% da matriz elétrica composta por fontes renováveis em 2024-2025, conforme o site oficial da EPE. Destacam-se o crescimento em solar (+39,6%), eólica (+12,4%) e a manutenção de uma liderança histórica em biomassa e hidráulica.
Essa expansão coloca o país em uma posição privilegiada para atrair indústrias de baixo carbono, exportar tecnologia e desenhar políticas de segurança, acesso e inovação de alcance global.
Investimentos e gargalos
Apesar da explosão verde, o estudo mostra que os investimentos em redes elétricas, baterias e flexibilidade do sistema não acompanham o ritmo de expansão das renováveis. O volume anual em novas usinas subiu 70% desde 2015 (ultrapassando US$ 1 trilhão), mas o gasto em redes ficou em menos da metade desse valor, cerca de US$ 400 bilhões ao ano.
Com isso, algumas regiões começam a enfrentar congestionamentos de transmissão, atrasos para conexão de projetos solares e eólicos e até elevação do custo da eletricidade ao consumidor final. Investimentos em armazenamento baterias chegaram a 75 GW instalados em 2024, mas ainda não solucionam toda a necessidade de flexibilidade — principalmente em picos sazonais de consumo.

Minérios críticos: um novo front da geopolítica
O relatório dedica atenção aos riscos ligados à cadeia de minerais estratégicos, essenciais para baterias, energia solar e carros elétricos. Um único país (China) responde por 70% do refino global desses minerais; até 19 dos 20 principais minerais estratégicos têm alta concentração produtiva.
Em 2025, mais de metade desses minerais estavam sujeitos a algum tipo de controle de exportação, tornando a segurança no suprimento não apenas um desafio técnico, mas também político e comercial.
A persistência dos combustíveis fósseis e o limite da transição
Apesar dos avanços, carvão, petróleo e gás permanecem em patamares elevados de uso. Eles só devem apresentar queda efetiva a partir da próxima década dependendo do compromisso político real de grandes economias. Em setores como aviação, transporte pesado e petroquímica, a dependência por fósseis ainda deve permanecer relevante até 2040, mesmo nos cenários mais otimistas.
Sem a aceleração de investimentos e políticas, o mundo caminha para uma elevação de temperatura entre 2,5 °C e 3 °C, segundo a própria IEA, acima do limite seguro defendido pelo IPCC.
Cerca de 660 milhões de pessoas continuam sem acesso à eletricidade em 2025, com 2,1 bilhões sem meios limpos de cozinhar. O WEO 2025 propõe roteiros de eletrificação rápida em regiões rurais com renováveis, políticas públicas de inclusão e integrações regionais para democratizar o acesso em até 10 anos.
O boom da digitalização, IA e o desafio da climatização
Data centers, inteligência artificial, conectividade e climatização somam hoje as maiores fontes do novo consumo elétrico. Só o crescimento de data centers deve triplicar até 2035, sendo altamente concentrado em China, EUA e Europa Ocidental.
Políticas para eficiência, redes inteligentes e modernização de aparelhos se tornam urgente, sob risco de picos e quedas de energia diante de ondas de calor e demanda cumulativa em grandes cidades.
Segurança e resiliência
A IEA reforça que a segurança energética depende de redes flexíveis, armazenagem acessível, proteção cibernética, diversificação de fornecedores de minérios e capacitação técnica além de respostas rápidas para eventos meteorológicos extremos, como recordes de calor, secas e tempestades que já afetam a confiabilidade das redes atuais. A resiliência deve ser prioridade global para garantir preços acessíveis e estáveis em todas as regiões.
Conclusão: ação, equidade e tecnologia vão definir o futuro
A “Era da Eletricidade” chegou, mas seu sucesso depende da combinação de políticas públicas ousadas, compromissos climáticos alinhados ao Acordo de Paris, investimentos em redes e armazenamento, impulso à inovação e inclusão dos mais vulneráveis.
O WEO 2025 é um chamado claro: nunca estivemos tão perto de uma transição energética global mas ainda precisamos superar desafios logísticos, políticos e econômicos para garantir que os benefícios do novo ciclo energético alcancem todas as pessoas e empresas do planeta.

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