A Construção de um Futuro Descarbonizado Através de Mecanismos de Mercado
O ano de 2026 encontra os mercados de carbono em um ponto de inflexão, impulsionados por um cenário global que exige ações climáticas cada vez mais concretas e eficientes. A International Emissions Trading Association (IETA), organização que reúne empresas e governos para promover o comércio de emissões, desempenha um papel crucial na formação e no aprimoramento desses mecanismos. Após a COP30, realizada em Belém, Brasil, em dezembro de 2025, a dinâmica dos mercados de carbono ganha novos contornos, com a busca por maior integridade, transparência e eficácia.
O Legado da COP30 em Belém: Um Ponto de Virada
A COP30, sediada na Amazônia brasileira, foi um evento de significado ímpar para a agenda climática global. A IETA descreveu a conferência como um “ponto de virada para a cooperação climática global”. A escolha de Belém como palco para as discussões climáticas ressaltou a importância das florestas tropicais e das Soluções Baseadas na Natureza (NBS) na estratégia de descarbonização global. O Brasil, com sua vasta biodiversidade e o papel central da Amazônia, emergiu como um protagonista nas discussões sobre o futuro dos mercados de carbono e a proteção ambiental.
Um dos resultados tangíveis desse engajamento foi o projeto ALMA Brasil, uma parceria entre a IETA e a Oil and Gas Climate Initiative (OGCI). Em dezembro de 2025, o projeto publicou descobertas cruciais sobre o escalonamento de atividades de NBS na Amazônia brasileira. Essas soluções, que incluem a conservação e restauração de ecossistemas, são fundamentais não apenas para a remoção de carbono da atmosfera, mas também para a proteção da biodiversidade e o desenvolvimento sustentável das comunidades locais.
Mercados de Carbono em Transição: O Caminho para 2030
Os mercados de carbono globais estão em um período de intensa transformação, com um olhar fixo em 2030. O relatório “The New Carbon Order: IETA Greenhouse Gas Report 2025″, publicado em dezembro de 2025, e a pesquisa de sentimento do mercado 2024/25, indicam que esses mercados estão em uma fase de transição, buscando maior maturidade e eficácia na precificação do carbono e na promoção de investimentos em projetos de redução de emissões.
Essa transição é marcada por uma crescente demanda por créditos de carbono de alta integridade, que garantam reduções de emissões reais, adicionais e permanentes. A IETA tem sido uma voz ativa nesse debate, defendendo a importância de padrões robustos e mecanismos de verificação confiáveis para evitar o greenwashing e construir a confiança dos investidores e do público. Em setembro de 2025, a organização publicou as “Guidelines for High Integrity Use of Verified Carbon Credits v2.0”, um marco importante para orientar as empresas e os participantes do mercado.

Desafios Regulatórios e a Busca por Clareza
A complexidade dos mercados de carbono exige um arcabouço regulatório claro e harmonizado. Em fevereiro de 2026, a IETA enviou comentários sobre as diretrizes de Escopo 2 do Greenhouse Gas Protocol, buscando maior clareza para as empresas na contabilização de suas emissões indiretas de eletricidade. A correta mensuração e reporte das emissões são fundamentais para a credibilidade dos mercados de carbono e para o acompanhamento do progresso em direção às metas de descarbonização.
No cenário europeu, a implementação do Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM), que entrou em fase de transição em 2023 com a obrigatoriedade de relatórios e a previsão de cobrança de taxas de carbono a partir de 2026, representa um desafio significativo para as empresas exportadoras para a União Europeia. Este mecanismo visa evitar a “fuga de carbono” e incentivar a descarbonização da indústria global .
O Papel do Brasil e a Taxonomia Sustentável
O Brasil, além de sediar a COP30, tem avançado em sua própria agenda de sustentabilidade e mercados de carbono. A Taxonomia Sustentável Brasileira (TSB), lançada em 2025, é um instrumento crucial para orientar o relato, verificação e monitoramento de informações de sustentabilidade no país. A TSB busca alinhar as práticas brasileiras aos padrões internacionais, conferindo maior confiabilidade para investidores e clientes e expandindo o mercado para empresas que adotam boas práticas.
O Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), que estabelece o marco regulatório do mercado de carbono no Brasil, é outro pilar dessa estratégia. O SBCE visa reduzir as emissões e estimular o uso e investimento em tecnologias de baixo carbono, criando um mercado regulado que pode gerar renda e novos negócios.
Essas iniciativas brasileiras são essenciais para que o país não apenas cumpra seus compromissos climáticos, mas também se posicione como um líder na economia verde global. A experiência do Brasil com as NBS na Amazônia, por exemplo, pode servir de modelo para outras regiões do mundo que buscam soluções baseadas na natureza para o combate às mudanças climáticas.
Perspectivas Futuras e a Necessidade de Cooperação
O futuro dos mercados de carbono e da agenda climática global dependerá da capacidade de governos, empresas e sociedade civil de trabalharem em conjunto. A IETA, por meio de seus eventos e publicações, como o European Climate Summit (ECS) e o Latin America Climate Summit (LACS), ambos previstos para 2026, continua a fomentar o diálogo e a colaboração entre os diversos stakeholders.
A necessidade de acelerar a descarbonização é inegável, e os mercados de carbono são ferramentas poderosas para atingir esse objetivo. No entanto, sua eficácia depende da constante busca por integridade, da clareza regulatória e da capacidade de adaptação a um cenário global em constante mudança. O ano de 2026, com seus desafios e oportunidades, será um teste decisivo para a resiliência e a inovação desses mercados.

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