Coalizão Global de Planejamento Energético, liderada pela IRENA, transforma estratégias nacionais em projetos financiáveis, abrindo caminho para investimentos anuais de US$ 670 bilhões em redes elétricas até 2030.
A transição energética global enfrenta um paradoxo. Enquanto a capacidade instalada de energias renováveis cresce aceleradamente, a infraestrutura que deveria transportar essa energia dos pontos de geração até os consumidores finais permanece defasada, comprometendo o avanço rumo às metas climáticas globais. Em janeiro de 2026, durante a 16ª Assembleia da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA) em Abu Dhabi, líderes globais lançaram a fase operacional de uma iniciativa que promete transformar esse cenário: a Coalizão Global de Planejamento Energético (GCEP, na sigla em inglês).
A mensagem central é clara: sem planejamento energético robusto e transparente, não há investimentos em escala. E sem investimentos massivos em redes elétricas, a meta de triplicar a capacidade renovável até 2030, estabelecida na COP28 em Dubai, permanecerá apenas no papel.
O Gargalo da Infraestrutura Elétrica
Os números dimensionam o desafio. Segundo estimativas da IRENA, serão necessários US$ 670 bilhões anuais entre 2025 e 2030 apenas para fortalecer e modernizar as redes elétricas globais. Essa cifra não representa um luxo ou uma ambição exagerada, mas sim o mínimo necessário para viabilizar a transição energética em curso.
As redes elétricas que transportam energia dos locais de produção aos pontos de consumo enfrentam uma combinação perigosa de fatores: demanda acelerada, complexidade crescente, equipamentos obsoletos e necessidade urgente de expansão. A infraestrutura atual, em grande parte projetada décadas atrás para sistemas centralizados baseados em combustíveis fósseis, não está preparada para integrar a geração distribuída e variável característica das fontes renováveis.
Durante a Assembleia de janeiro de 2026, Francesco La Camera, Diretor-Geral da IRENA, foi direto: “Ao investir mais, enviaremos um sinal poderoso aos mercados: as redes são a espinha dorsal da transição energética e a chave para alcançar nossa meta de triplicar a capacidade renovável instalada até 2030, conforme determinado pelo Consenso dos Emirados Árabes Unidos na COP28”.
Da Estratégia ao Investimento: O Papel do Planejamento
O grande obstáculo não é a falta de recursos financeiros globais, mas sim a ausência de projetos estruturados, financiáveis e com riscos mitigados que possam atrair capital privado em larga escala. É exatamente nesse ponto que o planejamento energético se torna decisivo.
Mike Enskat, Diretor do Centro de Inovação e Tecnologia da IRENA, durante mesa-redonda de alto nível realizada no evento de janeiro de 2026, reforçou: “Mobilizar financiamento para expandir e modernizar a infraestrutura de rede exige enfrentar desafios relacionados a lacunas de financiamento e riscos de capital. O planejamento energético deve ser a ferramenta para fechar essas lacunas, atraindo investimentos onde eles são necessários”.
Yuval Laster, chefe da Divisão de Meio Ambiente da OCDE, complementou durante o mesmo evento, destacando o que os formuladores de políticas precisam fazer para atrair investimentos: “O planejamento de investimentos deve estar ancorado em planejamento energético claro; estrutura regulatória que crie ambiente propício ao investimento; mecanismo de mitigação de riscos; e pipeline de projetos financiáveis. Combinados, eles devem estar alinhados para mobilizar financiamento para redes elétricas”.
A Coalizão Global de Planejamento Energético em Operação
Lançada oficialmente durante o 1º Encontro de Planejamento Energético em junho de 2025 no Rio de Janeiro, a GCEP entrou em sua fase operacional em janeiro de 2026. A iniciativa surgiu da presidência brasileira do G20 em 2024 e tem a IRENA como secretariado permanente.
A coalizão trabalha com cinco princípios fundamentais: promover planejamento energético transparente e eficaz, facilitar o intercâmbio de conhecimento e desenvolvimento de capacidades, catalisar investimentos criando ambientes favoráveis, encorajar a apropriação nacional dos processos de planejamento energético com participação inclusiva, e alavancar iniciativas e parcerias existentes.
Juan Jose Garcia Mendez, Oficial de Programa da IRENA, apresentou durante a Assembleia de janeiro de 2026 os dois fluxos de trabalho centrais da GCEP: criar uma ponte entre ministérios de energia e instituições financeiras melhorando a gestão do planejamento, e aprimorar a capacidade técnica para implementação.
A estratégia é pragmática. Em vez de criar mais uma camada burocrática internacional, a GCEP funciona como plataforma de cooperação, conectando países com expertise em planejamento energético bem-sucedido àqueles que ainda desenvolvem suas capacidades, especialmente no Sul Global.

Números que Impressionam e Preocupam
O investimento global em tecnologias de transição energética atingiu recorde de US$ 2,4 trilhões em 2024, segundo o relatório “Global Landscape of Energy Transition Finance 2025” divulgado pela IRENA em novembro de 2025. Apesar dos investimentos anuais terem mais que dobrado desde 2019, eles permanecem concentrados em economias avançadas e China, deixando a maior parte dos países emergentes e em desenvolvimento para trás.
Cerca de um terço do investimento em 2024 foi direcionado a tecnologias de energia renovável, elevando o investimento em energias renováveis para US$ 807 bilhões. O investimento global em energia solar fotovoltaica atingiu recorde com US$ 554 bilhões em 2024, aumento de 49%. Pela primeira vez, o investimento em energia renovável, redes e armazenamento em baterias superou o investimento em combustíveis fósseis em 2024, embora os gastos com combustíveis fósseis estejam em ascensão.
Mas há um problema estrutural. Francesco La Camera destacou: “A IRENA há muito tempo defende o uso mais inteligente de fundos públicos para desbloquear investimento privado por meio de ferramentas de mitigação de risco. No entanto, a forte dependência de capital orientado ao lucro está deixando países em desenvolvimento para trás”.
Quase metade do investimento total em 2023 foi fornecida como dívida, a maior parte a taxas de mercado. O restante foi investido por meio de capital próprio. Subsídios representaram menos de 1%. A urgente necessidade de mobilizar investimentos, combinada com a escassez de capital orientado a impacto, como dívida de baixo custo e subsídios, corre o risco de exacerbar encargos de dívida nos países mais vulneráveis.
Setor Privado se Compromete com US$ 117 Bilhões Anuais
Paralelamente às iniciativas governamentais, o setor privado tem dado sinais concretos de compromisso. Mais de 70 membros e parceiros da Aliança de Utilidades para o Zero Líquido (UNEZA, na sigla em inglês) reforçaram seu compromisso com investimentos anuais de mais de US$ 117 bilhões em redes e renováveis.
Cerca de 48% do investimento planejado e comprometido será destinado à infraestrutura de rede, sustentando as ambições delineadas pelo Compromisso Global de Armazenamento de Energia e Redes da COP29 de adicionar ou reformar 80 milhões de quilômetros de redes até 2040.
Em setembro de 2025, durante a Semana do Clima de Nova York, a UNEZA lançou o relatório “Delivering Large-Scale Grid Infrastructure Projects at Pace” (Entregando Projetos de Infraestrutura de Rede em Larga Escala com Velocidade). O documento confirma que entregar projetos de infraestrutura de rede em larga escala, embora complexos e demorados, é viável com investimento financeiro significativo, planejamento extensivo e coordenação de múltiplos stakeholders.
A aliança identificou quatro áreas-chave de lições aprendidas para entregar projetos de infraestrutura em larga escala: planejamento, financiamento, cadeias de suprimento e habilidades. As recomendações feitas pelos membros da UNEZA são agrupadas nessas quatro áreas, com base em exemplos concretos de projetos implementados em diferentes partes do mundo.
Inovação Sistêmica: 40 Soluções Para Transformar Sistemas Energéticos
Durante a Assembleia de janeiro de 2026, a IRENA lançou o relatório “Innovation Landscape for Sustainable Development Powered by Renewables” (Panorama de Inovação para Desenvolvimento Sustentável Impulsionado por Renováveis), que identifica 40 inovações capazes de transformar sistemas energéticos globais.
O relatório foi apresentado durante um Diálogo Ministerial sobre o papel da Inteligência Artificial (IA) e deixa claro que a transformação acontece quando a inovação tecnológica é entrelaçada com inovação em políticas, regulação, desenho de mercado, operação de sistemas e modelos de negócios.
As 40 inovações vão desde aplicações de IA e digitais até soluções para modernizar redes por meio de planejamento mais inteligente, soluções off-grid e novos modelos de negócios. O relatório conclui que apenas uma abordagem sistêmica e integrada pode entregar sistemas de energia resilientes, ampliar o acesso à energia, garantir acessibilidade e realizar a promessa completa da transição energética.
Para tornar as 40 inovações identificadas acionáveis e imediatamente aplicáveis para formuladores de políticas, elas são agrupadas em quatro kits de ferramentas estratégicas para soluções específicas ao contexto: modernização de redes, soluções descentralizadas, desenvolvimento local inclusivo e acesso à energia.
Casos Práticos: Da Teoria à Realidade
O relatório apresenta exemplos concretos de inovações já sendo testadas globalmente. Na Tanzânia, Quênia, Colômbia e Malásia, residentes de comunidades energéticas possuem coletivamente e se beneficiam de projetos renováveis locais. Pools regionais de energia na África Ocidental permitem que 15 países compartilhem recursos renováveis através de fronteiras.
A classificação dinâmica de linhas (dynamic line rating) na Malásia aumenta a capacidade de transmissão em 10-50% por meio de monitoramento climático em tempo real. Estações de troca de baterias em Uganda e Ruanda tornam a mobilidade elétrica acessível. E modelos de negócios pré-pagos levaram eletricidade acessível para mais de 500 mil pessoas em Serra Leoa e Libéria.
Francesco La Camera ressaltou durante o lançamento do relatório: “A transição energética não é apenas sobre disponibilidade de tecnologia, mas também sobre soluções que entregam justiça social e evitam deixar ninguém para trás. Com o relatório de hoje, pedimos uma abordagem de inovação sistêmica e orientamos formuladores de políticas com um kit de ferramentas para formular soluções sob medida”.
América Latina na Mira dos Investimentos
Em fevereiro de 2026, a IRENA abriu chamada para projetos de energia renovável na América Latina, convidando desenvolvedores de projetos dos setores público e privado da região a submeterem propostas. Projetos selecionados podem ser considerados para financiamento por meio da Plataforma de Investimento Climático (CIP) da IRENA e da plataforma de Financiamento Acelerador da Transição Energética (ETAF).
A iniciativa visa apoiar os esforços contínuos dos países latino-americanos para descarbonizar suas economias e ampliar o uso de energia renovável, garantindo uma transição energética justa. Projetos elegíveis se beneficiarão de acesso potencial a financiamento, parcerias de investimento e instrumentos de mitigação de risco para ajudar a acelerar seu desenvolvimento.
A plataforma ETAF fornece acesso a projetos de energia renovável de médio a grande porte prontos para investimento com uma gama de instrumentos de financiamento, totalizando US$ 4 bilhões comprometidos por seus 14 parceiros globais de financiamento e mitigação de risco. Os requisitos de despesas de capital são de pelo menos US$ 25 milhões para projetos privados ou Parcerias Público-Privadas (PPPs) e US$ 10 milhões para projetos do setor público.
São elegíveis projetos da Argentina, Belize, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela.

Brasil Como Modelo de Planejamento de Longo Prazo
O Brasil emergiu como exemplo de como o planejamento energético de longo prazo pode atrair investimentos necessários para a transição energética. Alexandre Silveira de Oliveira, Ministro de Minas e Energia do Brasil, oficializou o convite à IRENA para servir como Secretariado da GCEP durante evento paralelo em janeiro de 2025, afirmando: “Há muitos compromissos internacionalmente sobre transição energética, mas precisamos de meios para implementá-los. Estou confiante de que a GCEP, com o secretariado da IRENA, pode ser uma das melhores ferramentas para abordar isso”.
Rasmus Tengvad, chefe de divisão da Agência Dinamarquesa de Energia, compartilhou durante a Assembleia de 2026 como o planejamento de longo prazo atraiu o investimento necessário para a transição energética na Dinamarca, oferecendo lições valiosas para outros países.
O diretor de Soluções Financeiras de Energia, Política e Regulamentação do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), reiterou que o planejamento energético é um exercício multipartes interessadas, destacando questões de moeda local: “Devemos utilizar moeda local, garantir que o arcabouço apoie o uso de moeda local no financiamento desses projetos, especialmente os transfronteiriços. Temos que levar em conta a mitigação de risco cambial para garantir que o investimento realmente se traduza em projetos concretos”.
O Caminho Até 2030
Com a COP31 marcada para novembro de 2026 em Antalya, na Turquia, e a expectativa de que a COP32 aconteça em 2027, a pressão sobre governos e empresas para apresentar planos concretos de modernização de infraestrutura elétrica só aumenta.
A GCEP representa uma mudança de paradigma: em vez de focar apenas em metas de capacidade instalada de renováveis, reconhece que a infraestrutura de transporte e distribuição é tão crítica quanto a geração. Em vez de criar novos mecanismos de financiamento do zero, trabalha para tornar os projetos existentes mais atraentes ao capital disponível por meio de melhor planejamento e mitigação de riscos.
O desafio é gigantesco: US$ 670 bilhões anuais até 2030 apenas em redes elétricas. Mas pela primeira vez, existe uma articulação global robusta conectando planejadores, financiadores, governos e setor privado em torno de uma agenda comum.
Como destacou Francesco La Camera durante a Assembleia de janeiro de 2026: “A IRENA, como Secretariado da GCEP, aproveitará sua participação quase universal e extenso repositório de melhores práticas para planejamento e modelagem de energia renovável para apoiar países, particularmente no Sul Global, no desenvolvimento de estratégias energéticas alinhadas com metas nacionais de desenvolvimento e climáticas”.
O Fator Decisivo: Cooperação Internacional
O que diferencia a GCEP de iniciativas anteriores é o reconhecimento explícito de que a transição energética não pode ser alcançada por países individualmente, especialmente aqueles em desenvolvimento. A cooperação Norte-Sul, Sul-Sul e até Sul-Norte é essencial.
A Rede Global de Cenários Energéticos de Longo Prazo (LTES), que serve de base para a GCEP, já demonstrou o valor da colaboração entre instituições de planejamento energético nacional em diferentes regiões e contextos de desenvolvimento. Promove parcerias inclusivas e sabedoria coletiva, reunindo campeões de planejamento energético para compartilhar experiências e soluções.
Gauri Singh, Vice-Diretora Geral da IRENA, enfatizou durante o Fórum de Legisladores da IRENA em janeiro de 2026: “Não se trata apenas de reconfirmar a ambição, mas de repensar como as estruturas habilitadoras se unirão para cumprir a ambição”. Ela sublinhou que não se trata apenas de tecnologia e inovação, mas de pessoas e garantir que todos se beneficiem.
Conclusão: Planejamento Como Investimento
A mensagem que emerge da 16ª Assembleia da IRENA e do lançamento operacional da GCEP é cristalina: planejamento energético não é custo burocrático, mas investimento estratégico. Cada dólar gasto em planejamento robusto pode desbloquear dezenas de dólares em investimento privado ao reduzir riscos percebidos e aumentar a confiança dos investidores.
A transição energética global está em um ponto de inflexão. A tecnologia existe, os recursos financeiros globais existem, e a vontade política, pelo menos em declarações, também existe. O que faltava era a ponte entre esses elementos. O planejamento energético estruturado, transparente e coordenado internacionalmente pode ser exatamente essa ponte.
Os próximos quatro anos, até 2030, dirão se o mundo conseguirá transformar compromissos em concreto, estratégias em projetos financiáveis, e ambições em infraestrutura real. A Coalizão Global de Planejamento Energético, com a IRENA à frente, oferece o roteiro. Agora é executar.

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