2025: o paradoxo climático brasileiro – quando a energia limpa não é suficiente

2025: o paradoxo climático brasileiro – quando a energia limpa não é suficiente

A história de 2025 será contada através de dois números que não combinam entre si. De um lado, o Brasil consolidou 62 gigawatts de capacidade solar instalada, atingiu 215,6 gigawatts de potência total na matriz elétrica com 84,45% de fontes renováveis, e se posicionou como liderança indiscutível na transição energética global. Do outro lado, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera atingiu 425,4 partes por milhão em dezembro, o nível mais alto registrado em 800 mil anos, e a temperatura média global se aproxima perigosamente de 1,5 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais.

Este é o paradoxo de 2025. Um ano de recordes energéticos simultaneamente com uma crise climática que não desacelera.

A Expansão Renovável: Um Sucesso Com Limitações

A energia solar fotovoltaica atingiu em novembro de 2025 a marca de 62 gigawatts acumulados, conforme registros da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica. Desde 2012, quando os registros começaram a ser sistematizados, o setor movimentou 279,7 bilhões de reais em investimentos, gerou 1,8 milhão de empregos e arrecadou 87,3 bilhões de reais em tributos.

Porém, o ritmo de crescimento desacelerou significativamente em 2025. O Brasil adicionou apenas 11,4 gigawatts de capacidade solar durante o ano, representando queda de 24% em relação aos 15 gigawatts instalados em 2024. Foi o segundo ano consecutivo de retração após anos de crescimento exponencial. Os investimentos no setor totalizaram 39 bilhões de reais, recuo de 29% comparado aos 54,9 bilhões de 2024.

A energia eólica apresentou quadro ainda mais dramático. Apenas 2,2 gigawatts foram instalados durante 2025, o menor volume desde 2019. O país chegou a 34,253 gigawatts de capacidade eólica acumulada, mantendo a quinta posição global, mas as adições anuais caíram pela metade em relação a 2024, quando foram adicionados 3,27 gigawatts.

Apesar destes números desalentadores para novos investimentos, a performance operacional da matriz renovável foi notável. A energia solar bateu recordes históricos de geração. Em 14 de março, atingiu 37.992 megawatts de potência máxima instantânea, atendendo a 39,2% da demanda naquele momento. A participação da energia eólica no sistema elétrico saltou de 10% em fevereiro de 2024 para 22% em outubro de 2025, impulsionada por condições atmosféricas excepcionais.

Até 1º de dezembro, o Brasil totalizava 215.576 megawatts de potência total fiscalizada pela ANEEL, distribuída em 84,45% de fontes renováveis. De janeiro a novembro, 118 novas usinas entraram em operação, destacando 53 centrais solares e 37 eólicas.

A geração distribuída, aquela representada por painéis solares em residências e pequenos negócios, manteve seu dinamismo. O Brasil registrou adesão de 217 mil empresas ao uso de energia solar em 2025, com adição de 2 gigawatts entre janeiro e outubro. O acumulado histórico chegou a 3.838.765 sistemas distribuídos em operação.

A geração de empregos, porém, começou a sofrer impacto da desaceleração. Em 2025, o setor solar gerou 396 mil empregos diretos e indiretos com arrecadação de 13 bilhões de reais em tributos. Para 2026, as projeções apontam redução para 319,9 mil empregos, queda de 19%.​

O Gargalo Invisível: Curtailment e Transmissão

A razão fundamental para esta desaceleração reside em um fenômeno invisível ao consumidor comum: o curtailment, ou corte de geração. Quando a quantidade de energia solar e eólica gerada supera a capacidade do sistema de transmissão de escoá-la para os centros de consumo, o Operador Nacional do Sistema (ONS) é obrigado a desligar usinas para evitar instabilidade da rede.

Entre janeiro e agosto de 2025, geradores de energia renovável sofreram perdas de 1,7 bilhão de reais apenas por causa destes cortes obrigatórios. Em agosto, as perdas atingiram 881 milhões de reais. Conforme pesquisa do evento ENASE 2025, o prejuízo acumulado para usinas eólicas e solares em todo o ano chegou a 4,8 bilhões de reais.

Os impactos econômicos foram severos. Parques solares com menos de um ano de operação enfrentaram cortes de até 70% de sua capacidade, comprometendo contratos de financiamento. Empresas multinacionais sinalizaram revisão de suas estratégias de investimento no Brasil.

Este é o paradoxo operacional de 2025: o Brasil produz recordes de energia limpa, mas não consegue consumir tudo o que gera. A infraestrutura de transmissão não acompanhou o crescimento acelerado de geração renovável dos anos anteriores.

2025: o paradoxo climático brasileiro – quando a energia limpa não é suficiente

A Conferência do Clima em Belém: Ambições Sem Roteiro Claro

Em novembro de 2025, o Brasil sediou a COP30 em Belém, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Cento e noventa e cinco países aprovaram 29 decisões consensuais formalizadas no Pacote de Belém, representando a maior rodada de negociações climáticas desde a COP26 em Glasgow em 2021.

Entre os avanços aprovados estavam o compromisso de triplicar o financiamento para adaptação até 2035 para países vulneráveis, a operacionalização do Fundo de Perdas e Danos para transferência direta de recursos, e a criação de novos mecanismos de transição justa para economias dependentes de combustíveis fósseis. Dezessete países aderiram a desafio de integrar soluções baseadas nos oceanos em seus planos climáticos nacionais, com a Parceria Um Oceano se comprometendo a catalisar 20 bilhões de dólares até 2030.

Porém, a conferência enfrentou crítica severa por aquilo que não conseguiu aprovar. Os textos finais não citam combustíveis fósseis explicitamente e não estabelecem roteiro claro para o abandono dessas fontes de energia. A prioridade do governo brasileiro, um “Mapa do Caminho para Afastamento de Economia Dependente de Combustíveis Fósseis”, não entrou na lista de consensos aprovados, refletindo divisões geopolíticas entre países desenvolvidos e em desenvolvimento.

André Corrêa do Lago, presidente da COP30, precisou suspender a sessão plenária por aproximadamente uma hora após questionamentos de países como Colômbia, Panamá, Uruguai e Argentina sobre alguns itens que estavam sendo aprovados.​

A Meta Brasileira: 67% de Redução até 2035

O Brasil havia apresentado durante a COP29 em novembro de 2024 sua terceira Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), estabelecendo meta ambiciosa de reduzir emissões de gases de efeito estufa entre 59% e 67% até 2035, comparado aos níveis de 2005.

Esta meta representa aceleração significativa na velocidade de redução. A NDC anterior, apresentada em 2020, estabelecia 37% de redução para 2025 e 43% para 2030. A nova meta exige redução de entre 150 a 350 milhões de toneladas de CO2 equivalente entre 2030 e 2035, velocidade significativamente superior aos 100 milhões de toneladas projetados para 2025-2030 na meta anterior.

Conforme avaliação de Roberto Schaeffer, pesquisador do Centro de Economia Energética e Ambiental da COPPE/UFRJ, a velocidade das reduções se acelera e, como consequência, a ambição do Brasil aumenta. Porém, a questão permanece: será a energia renovável suficiente para atingir estas metas sem transformação simultânea de outros setores?​

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O Desmatamento: Avanços Frágeis

Em outubro de 2025, o Brasil registrou redução de 11,08% no desmatamento da Amazônia e 11,49% no Cerrado em comparação com o ano anterior. Acumuladamente desde 2022, o país evitou emissão de 733,9 milhões de toneladas de CO2 equivalente por desmatamento, volume equivalente às emissões combinadas de Espanha e França em 2022.

Contudo, este progresso se mostra frágil frente aos incêndios florestais. Os incêndios de 2024 provocaram crise de emissões. A Amazônia registrou 791 milhões de toneladas de CO2 liberado por queimadas, sete vezes acima da média histórica recente e superando, pela primeira vez, as emissões provenientes do desmatamento direto.

A degradação florestal, aquela perda parcial de vegetação por fogo, extração seletiva, apresentou explosão alarmante em 2024. Enquanto o desmatamento direto provocou emissão de 60,7 milhões de toneladas de CO2 equivalente, a degradação foi responsável por 161,4 milhões de toneladas. Este fenômeno indica fragilização crescente da cobertura florestal primária.

Em 2025, sinais de retrocesso começaram a aparecer. Os dados de maio mostraram aumento de 92% no desmatamento comparado a maio do ano anterior. Uma análise dos primeiros seis meses do ano indicou crescimento de 27% em alertas de desmatamento em relação ao período equivalente de 2024.

João Paulo Capobianco, secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente, advertiu em junho que com o agravamento das mudanças climáticas e a maior fragilidade da cobertura florestal primária, o Brasil estava começando a assistir a uma mudança de cenário que comprovava os alertas que vinham sendo feitos pela comunidade científica.​

O Desafio Climático Global: Aquecimento Acelerado

O ano de 2025 consolidou-se como o segundo ano mais quente já registrado desde que há medições sistemáticas de temperatura global, apenas superado por 2024. De janeiro a agosto, a temperatura média global alcançou 1,42 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais.

A Organização Meteorológica Mundial divulgou em maio perspectivas inquietantes. Há 86% de probabilidade de que pelo menos um dos anos entre 2025 e 2029 ultrapasse 1,5 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais, limite estabelecido pelo Acordo de Paris como o ponto de referência para evitar os piores cenários de mudança climática. Este percentual representa aumento significativo em relação aos 47% previstos em relatório anterior.

Há projeção de 70% de que a temperatura média para todo o período 2025-2029 seja superior a 1,5 graus Celsius. Para o Ártico especificamente, os próximos cinco invernos devem registrar aquecimento de 2,4 graus Celsius acima da média histórica de 1991-2020, sinalizando vulnerabilidade extrema das regiões polares.​

A Atmosfera: CO2 em Níveis Alarmantes

A concentração de dióxido de carbono alcançou 425,4 partes por milhão em dezembro de 2024 e continuava em escalada. O aumento de 3,5 partes por milhão em apenas 12 meses representa ritmo alarmante de mudança atmosférica. As projeções indicam que a concentração superará 430 partes por milhão em maio de 2025.

Para contextualizar a magnitude desta concentração, estudos paleoclimáticos indicam que CO2 não atingia este nível há pelo menos 800 mil anos. Os últimos dez anos, compreendendo 2015 a 2024, foram os mais quentes já registrados no Holoceno. Os anos 2023 e 2024 individualmente foram os mais quentes nos últimos 125 mil anos.

Este aumento contínuo de CO2 ocorre simultaneamente com a expansão massiva de energia renovável global, indicando que o crescimento de fontes limpas foi insuficiente para compensar as emissões totais do planeta. A agropecuária mundial, transportes, indústria pesada e perdas florestais continuam emitindo em ritmo que supera a descarbonização do setor energético.

A Agropecuária Brasileira: Quarto Recorde Consecutivo

A agropecuária brasileira registrou seu quarto recorde consecutivo de emissões em 2024-2025, totalizando 631,2 milhões de toneladas de CO2 equivalente. Este setor representa a maior fonte individual de emissões do Brasil, impulsionado principalmente pela pecuária e pela produção de alimentos para exportação.

Este número apresenta desafio significativo à meta brasileira de redução de 67% de emissões até 2035. A energia renovável, apesar de seus sucessos, não conseguirá sozinha atingir estas metas sem transformação simultânea do setor agropecuário, um dos pilares da economia brasileira.

O Paradoxo de 2025: Quando o Sucesso Não É Suficiente

O ano de 2025 revela verdade incômoda sobre a transição climática global. O Brasil consolidou a maior matriz elétrica renovável do mundo, com 84,45% de sua capacidade instalada proveniente de fontes limpas. O país lidera a transição energética e realiza conferência climática global com ambições históricas.

Ao mesmo tempo, a concentração de CO2 continua subindo para níveis sem precedentes em 800 mil anos. A temperatura global se aproxima perigosamente de 1,5 graus de aquecimento. Os incêndios florestais relacionados às próprias mudanças climáticas provocam emissões recordes. A agropecuária, setor fundamental da economia brasileira, produz suas maiores emissões.

O paradoxo é que sucesso energético não equivale a sucesso climático sem transformação simultânea de todos os setores que representam a maior parte das emissões globais. Energia renovável é necessária, mas não suficiente.

O Que Vem em 2026: Duas Oportunidades

Dois desenvolvimentos podem redefinir a equação em 2026. O primeiro é o leilão de armazenamento em baterias agendado para abril, primeiro desta natureza no Brasil. O armazenamento resolveria o problema do curtailment, permitindo que energia solar gerada nas tardes ensolaradas seja armazenada e liberada nos períodos de baixa irradiância.

O segundo desenvolvimento é a emergência dos data centers como coluna de demanda. Pedidos de conexão de centros de dados à rede elétrica somaram 26,2 gigawatts em novembro de 2025, aumento de 32,3% em apenas dois meses. Esta demanda enorme poderia absorver a energia renovável que de outro modo seria desperdiçada por curtailment.

Contudo, estes avanços tecnológicos e econômicos não resolvem o desafio climático fundamental. A OMM projetou que há apenas 14% de probabilidade de que nenhum dos próximos cinco anos ultrapasse 1,5 graus de aquecimento. Ultrapassar este limite, mesmo que temporariamente, é praticamente inevitável.

As implicações são severas. Cada fração adicional de grau de aquecimento provoca ondas de calor mais severas, eventos extremos de chuva, secas intensas, derretimento de camadas de gelo, aquecimento acelerado dos oceanos e elevação do nível do mar com consequências para as zonas costeiras onde vive a maioria da população mundial.​

Conclusão: A Urgência Contra o Tempo

O ano de 2025 consolida uma verdade fundamental: energia renovável é necessária mas não suficiente para resolver a crise climática. O Brasil lidera a transição energética, a COP30 estabeleceu metas ambiciosas em financiamento e adaptação, mas as concentrações de CO2 continuam subindo em ritmo acelerado, as temperaturas batem recordes, e as emissões globais não acompanham o ritmo de redução necessário.

A história de 2025 será contada através daqueles dois números que não combinam: 215,6 gigawatts de matriz limpa versus 425,4 partes por milhão de CO2. O primeiro número representa o que o Brasil conseguiu fazer. O segundo número representa aquilo que o planeta ainda enfrenta.

A corrida contra o tempo está acelerada, mas a ação climática estrutural ainda está longe de seu ritmo necessário. A energia limpa está conquistada. O clima, infelizmente, permanece em crise.

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